Cânticos

Na capoeira o desenvolvimento musical é de extrema importância, pois sem a musicalidade não se joga a capoeira de uma forma completa. Para além das palmas e o toque dos instrumentos, existem os cânticos, que são, juntamente com os ritmos do berimbau, a forma que os capoeiristas têm de transmitir as suas mensagens durante toda a roda, com também, de ensinar os mais novos através das letras.
De acordo com algumas pesquisas, os cânticos passaram a ser mais utilizados na capoeira com o surgimento das academias, entre 1930 e 1940. Segundo depoimentos de velhos Mestres, como João Grande e João Pequeno, antigamente conferia-se mais enfâse ao som dos instrumentos da capoeira, do que propriamente aos cânticos.
Hoje em dia os cânticos passam todo o ensinamento verbal, dos mais velhos para os mais novos. Através dos cânticos, os capoeiristas podem louvar seus santos protetores, lugares, mestres antigos assim com os seus feitos, podem desafiar ou agradecer, relatar grandes acontecimentos históricos ou mesmo brincar com seus parceiros de roda.

capoeira_canticoOs cânticos representam a ligação entre a capoeira do passado e a do presente, como também a própria identidade das rodas de capoeira, na medida em que, seus integrantes na maior parte das vezes cantam suas histórias, seu quotidiano, criando deste modo uma atmosfera própria em cada roda. Emília Biancardi retrata em sua pesquisa, sobre as raízes Musicais da Bahia, a opinião de Rosângela Costa Araújo (“Universo Musical da Capoeira” – II Encontro Internacional de Capoeira Angola, Bahia 1994), a qual confere aos cânticos da capoeira, uma importância crucial no que diz respeito à compreensão da vida nacional brasileira, da linguística, do folclore, da etnografia, da sociologia, da história e da cultura em geral, pois os depoimentos musicais transportam informações do passado para o presente. Os cânticos da capoeira são provenientes dos Martelos (os versos utilizados pelos repentistas Nordestinos, nos desafios musicais), dos Romances (versos de origem portuguesa, que criam e descrevem acções e sentimentos de personagens fictícias, numa transposição para a vida real) das Xácaras (narrativas populares em verso, de origem portuguesa, retratando o período colonial). Hoje me dia, torna-se difícil traçar um parâmetro bem definido entre os cânticos antigos e os actuais, pois a musicalidade na capoeira está em constante renovação, misturando-se muitas das vezes, criações antigas com actuais, despistando-se assim a clareza e autenticidade histórica de determinadas músicas.

Os tipos de cânticos

Como é do nosso conhecimento, existem dois estilos bem definidos de capoeira, a Capoeira Angola e a Regional. Para além desses dois estilos, temos um movimento renovado na prática da capoeira, definido por moderna ou contemporânea. Perante esta divisão, os cânticos também são utilizados de formas distintas, porém similares, os quais passamos a citar.
Existem as Ladainhas, os Corridos as Quadras e as Chulas, sendo que esta última é objecto de discussão. Cada um destes cânticos tem um papel definido nas rodas de capoeira, criando um fundamento musical e ritual, ainda mais rico para os praticantes da capoeira.

A Ladainha
A expressão Ladainha, provém do devocionário católico (reza), é o cântico de iniciação da roda, ou de um jogo, em alguns lugares é chamada também de canto de louvação. A Ladainha, é um cântico longo, que pode passar diversas narrativas, contando histórias de personagens importantes ou do cotidiano, e ou passando uma mensagem para os jogadores ou público. É neste momento que se dita o preceito do jogo, é tradicionalmente utilizada na capoeira Angola.
A ladainha pode ser cantada por um dos dois jogadores que se encontram ao pé dos berimbaus, ou então, pelo Mestre da roda que, no caso, deve estar a tocar o berimbau Gunga. Durante um jogo não se deve cantar uma ladainha, a não ser que se queira interromper o mesmo, chamando os jogadores para a entrada da roda, fazendo-os escutarem a mensagem do cântico.
A Ladainha é composta por um solo, seguido de um solo e coro, o seu ritmo é lento, acompanhado quase sempre do toque de Angola ou São Bento Grande de Angola (lento). A entrada para o jogo depende também do término da ladainha e inicio do corrido, significando a autorização para o começo do jogo.

Exemplo:
Eu tive um sonho
Eu tive um sonho oi iáiá
Com um negro velho
Cantando uma ladainha
Estava velho e magoado ai meu deus
Como esse negro sofria.
E eu chorei, chorei ouvindo o lamento
Esse negro nada tinha
A não ser a protecção do seu São Bento.
Olho para o mar
No fundo do horizonte
Vejo jogar capoeira
Ouço tocar berimbau
Vejo tombo da ladeira
Ouço santa Maria e regional.
Pastinha morreu sozinho
Mas foi o guardião da capoeira
Levou com ele a mandinga
O jogo de Angola e a brincadeira.
Sonhei com mestre pastinha
Que deus o tenha bem guardado
Na roda da capoeira
Pastinha já está classificado.

Coro
Bahia chorou, chorou

Seu pastinha já se foi
Bahia chorou, chorou
Foi jogar com mestre Bimba

O Corrido
É utilizado tanto na Angola como na Regional. Na roda de Angola, após a ladainha, o corrido dita o ritmo do jogo e dá continuidade à roda. Já na Regional, como o próprio nome indica, cria um ritmo mais acelerado, estimulando um jogo mais rápido, dando assim aos praticantes da Regional uma preferência por este tipo de cântico.
No corrido o cantador ou puxador, canta uma estrofe, e o coro responde sempre o mesmo refrão. Este refrão não tem obrigatoriamente ligação com as palavras do cantador, ou seja, não se repete a estrofe na maioria das vezes. O corrido deve ser mantido pelo puxador durante um bom tempo, como forma de criar uma vibração e uma sensação de êxtase na roda, fazendo com que todos os participantes sintam a energia da roda, e os jogadores, ultrapassem as suas limitações.

Exemplo:
Cantador 
Mais se meu mestre diz que sim
Quem é você ‘pra dizer não

Coro
Oi sim sim sim, oi não não não


Cantador
Mais se hoje tem amanhã não
Hoje tem amanhã não

Coro
Oi sim sim sim, oi não não não

As Quadras
Como o próprio nome define, as quadras são conjuntos de quatro estrofes, seguidas sempre do mesmo refrão, só se verifica a sua utilização na conhecida Capoeira Regional. O conteúdo das quadras é variável, podendo abranger diversos temas, tais como uma advertência ao companheiro de roda, factos e lendas das rodas e etc.
As quadras podem ser improvisadas, desde que tenham a presença dos versos, e a continuidade de ideias. Por vezes podem prolongar-se com mais estrofes, dependendo do fluxo das ideias que venham do cantador. Pode-se jogar capoeira durante a utilização das quadras, Mestre Bimba costumava cantar quadras durante as rodas, sem que seus alunos tivessem de interromper o jogo.

Exemplo:
Cantador
Vou dizer a meu senhor

Que a manteiga derramou
E a manteiga não é minha
Caiu no chão se derramou

Coro
Vou dizer a meu senhor

Que a manteiga derramou

As Chulas

As chulas são associadas por diversos capoeiras como sendo a própria Ladainha. Já para outros, são os Corridos mas cantados como canto de entrada após uma Ladainha. Existe ainda a definição de que as Chulas são como todos os cânticos utilizados na roda, ou seja, é tanto a Ladainha como o Corrido, definindo-se como a própria musicalidade da capoeira.
Dr. Decânio, um dos mais ilustres discípulos de Mestre Bimba, afirma que a Chula é um curto improviso de apresentação ou identificação, derivado da Chula Portuguesa. Diz ainda que os cantadores usam uma Chula como introdução aos Corridos e às Ladainhas, durante a qual o cantador insinua e induz o coro a responder determinada estrofe.

Exemplo:
Iê Vamo jogar…

Coro
iê vamo jogar camará

iê dá a volta ao mundo…

Coro
iê dá a volta ao mundo camará

Considerações finais
Dentro da regionalização da capoeira, certos parâmetros e fundamentos distintos, como hoje em dia diz-se, “A capoeira tem várias verdades”, é muito importante o capoeirista actual tentar perceber a diversidade musical da capoeira, como forma de se conseguir integrar nos diversos estilos existentes na capoeiragem. Em determinadas rodas cantam-se:

Uma Chula, seguida de uma ladainha, seguida de um corrido.
Uma ladainha, seguida de uma chula, seguida de um corrido.
Uma chula, seguida de uma ladainha, seguida de uma chula, seguida de um corrido.
Uma metáfora, seguida de uma ladainha, seguida de uma saudação.
Uma ladainha, seguida de um canto-de-entrada, e seguido de um corrido, acompanhado com a mudança de ritmo.

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